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quinta-feira, 17 de março de 2011

Luta de origem israelense, o Krav Magá conquista cada vez mais o público feminino em Brasília



Vanessa Ribeiro, 32 anos, começou a praticar Krav Magá há 10, em Niterói (RJ). Apresentada pelo irmão, instrutor da técnica, Vanessa apaixonou-se pela arte de defesa israelense, tanto que fez dela um meio de vida. Convidada por Kobi Lichtenstein, mestre responsável pela divulgação da luta no Brasil, formou-se instrutora e tornou-se a primeira mulher a dar aulas na América Latina. Sob sua tutela, outros três instrutores formaram-se em Brasília desde que chegou à cidade, há seis anos. Um deles é também uma mulher.
Sílvia Cotarelli, 23 anos, descobriu a luta aos 15 quando leu um artigo sobre o Krav Magá numa revista feminina. Levada pelo pai e atraída a princípio pela vaidade, Sílvia fez da luta também sua profissão. Ela e Vanessa treinaram juntas no Rio de Janeiro. Quando se mudou para Brasília, Sílvia foi trabalhar na academia instalada pela colega. As duas são as únicas mulheres habilitadas a dar aula de Krav Magá no país.
Luta de autodefesa criada em meados de 1940, o Krav Magá - que em hebraico significa "combate próximo" - chegou ao Brasil há pouco menos de 20 anos. Desenvolvido pelo húngaro Imi Lichtenfeld, ex-lutador de boxe e de luta greco-romana, o Krav Magá surgiu a partir da criação de um grupo de defesa que lutava pela permanência do povo judeu em território israelense. Anos depois, tornou-se parte do treinamento das forças armadas de Israel e só a partir de 1960 foi liberada para uso civil.
Difundida, tornou-se uma das técnicas usadas por forças de segurança de todo o mundo, entre elas FBI, SWAT e Bope. A luta é baseada em técnicas de defesa e ataque para situações de violência ou risco iminente. Além de postura defensiva, os alunos aprendem sobre regiões sensíveis do corpo do rival e como os golpes podem ser dados. Não há competições ou regras definidas para sua prática, que pode ser entendida como uma espécie de vale-tudo da vida real. Segundo Vanessa Ribeiro, responsável pela difusão do Krav Magá em todo o Centro-Oeste, a luta não exige força ou grande flexibilidade de seus adeptos porque busca atingir os pontos fracos do adversário com golpes repetitivos em locais como olhos e região genital.
Para ela, pode ser praticado por todas as pessoas. Esse foi um dos motivos que atraiu a médica Manoela Escobar, 35 anos. Ela soube da luta por um amigo e, curiosa, procurou saber mais sobre o assunto na internet. "Achava que não seria capaz de agüentar o treino, que seria muito pesado para mim. Hoje sei que todos são capazes de praticar", afirma. Além de possível para seu tipo físico, o aprendizado de autodefesa chamou a atenção da médica. "O que torna o Krav Magá interessante é justamente o fato de aprender uma defesa pessoal, ao mesmo tempo em que se pratica uma atividade física. E o melhor é que cada aula é diferente da outra", explica. Manoela, que sempre foi sedentária, diz sentir os efeitos da prática do Krav Magá. "Cheguei a pesar 95 quilos. Com ajuda de dieta e das aulas que pratico duas vezes na semana, perdi 11", conta.
Nathália Araújo
Vanessa Ribeiro foi a primeira mulher a dar aulas de Krav Magá na América Latina
Além dos benefícios físicos, Manoela, que trabalha em plantão de UTI, afirma que a luta ajuda a extravasar o estresse diário. Os mesmos motivos levaram a advogada Kely Brasil à academia de luta há três anos. "Eu me interessei tanto pela atividade física quanto pela proposta de aprender a me defender", conta. A advogada de 23 anos já fez aulas de jiu-jitsu no passado e diz que o fato da atividade não exigir força física foi um incentivo a mais. Para Kely, os golpes dependem muito mais do uso da técnica e da agilidade do que propriamente da força.
A estudante Teomália Ferreira, 21 anos, pratica artes marciais desde os 7. Já treinou judô, karatê, tae kwon do, capoeira e outras tantas lutas mais ou menos conhecidas. Há três anos, seu pai assistiu a um vídeo sobre o Krav Magá e imediatamente lembrou-se da filha. Ela gostou já no primeiro treino. Para a estudante, o que mais atrai no Krav Magá é o fato de que o aluno está continuamente aprimorando as técnicas ensinadas. "Nas outras lutas chega um momento em que os seus conhecimentos se estabilizam, o aluno alcança o grau máximo de aprendizado. No Krav Magá, a cada troca de faixa se aprende o dobro", conta.
Apesar da violência dos golpes, Teomália acredita que o Krav Magá se aproxima mais das mulheres do que outras artes marciais. "A mulher se prepara para se defender e não para atacar. Não quer dizer que a luta não seja violenta, mas no Krav Magá você oferece ao seu agressor o mesmo grau de violência que ele te impõe", explica. O relato da estudante de estatística da Universidade de Brasília (UnB) é parecido com o de outras mulheres que descobriram na luta uma atividade física e de defesa pessoal.
Para Vanessa Ribeiro, o perfil das mulheres que procuram as academias de Krav Magá é bem distinto. As idades e a classe social variam, mas o interesse pelo aprendizado da autodefesa é sempre o fator constante. A procura tem crescido na mesma proporção que a violência urbana. No Brasil, já são mais de 50 academias especializadas. A maior parte em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Apesar disso, a instrutora explica que o público feminino ainda é minoria. "Dos 300 alunos que tenho, só 10% a 15% são mulheres", diz. Mesmo sendo exceção num universo quase sempre masculino, Vanessa conta que nunca sofreu preconceito. "Minha postura sempre foi muito profissional e talvez por isso nunca tenha me sentido intimidada", conta a professora, faixa azul na arte marcial.
TESTE
Essa realidade é um pouco diferente para a instrutora e estudante de educação física Sílvia Cotarelli. Ela dá aulas da luta na Polícia Civil desde agosto de 2007 e lá ela diz sentir um pouco mais de desconfiança. "Como só dou aulas para homens na polícia, sinto que algumas vezes querem me testar, saber se tenho todo o conhecimento mesmo", conta.
Para João Augusto Ramos, praticante de Krav Maga há seis anos, nunca foi um problema ser aluno de uma mulher numa academia de luta. Aluno de Vanessa, João conta que o fato de ter uma professora de Krav Magá causa mais surpresa às suas amigas. "A primeira reação quando digo que uma mulher dá aula de Krav Magá é um 'É mesmo?' em tom de admiração ", conta o estudante de publicidade. Faixa verde, João reconhece o esforço dos professores. "Para se tornar instrutor é preciso muito trabalho e sei que ela batalhou por isso", conclui.
Como acontece em outras artes marciais, a evolução dos alunos é medida por cores nas faixas usadas na cintura. Para cada mudança de cor são necessários, em média, dois anos de treinamento. Para que um aluno se torne instrutor, é preciso que ele seja indicado por um professor e faça um curso preparatório. Ao todo, para se chegar à faixa preta, são necessários 15 anos de esforço. E no Krav Magá, essa não é a maior graduação. Após a faixa preta, mais 10 estágios, concedidos por mérito, podem ser conquistados. Tanta rigidez tem explicação para João Augusto. "No Krav Magá cada conquista provém, principalmente, do merecimento", diz.
Publicado em 02/04/2008


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